Sínodos Vale do Itajaí e Norte Catarinense - 21 de outubro de 2017
Abril 2016

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HOMOAFETIVIDADE

No Dia da Igreja em Colônia, na Alemanha, trabalhei como voluntário e fui hospedado em casa particular. Meus hospedeiros eram gentis e atenciosos. Sua casa revela traços da personalidade dos moradores: gostam da beleza simples e prática, sem sofisticações, com critério na escolha e nada de consumismo exagerado. Percebi grande consciência ecológica na organização da casa, no uso de água e energia, na seleção do lixo ou nos cuidados do pequeno jardim. O modo como meus hospedeiros convivem e se comunicam revela atenção carinhosa, respeito e cuidado mútuos, como acontece entre casais que são felizes e se enriquecem mutuamente.

Meus hospedeiros são dois jovens homoafetivos. Prefiro essa palavra. Homoafetividade. O termo homossexualidade soa-me muito restrito à prática sexual física propriamente dita. Homoafetividade sugere uma relação muito mais ampla: homo-convivência, homo-partilha, homo-cuidado, homo-ternura, homo-realização como ser humano.

Os próprios envolvidos devem decidir sobre o termo que querem usar. Eu vou dizer homoafetividade. Também são eles que devem decidir se querem entender a sua homoafetividade como opção ou como condição.

Eu vou dizer que é uma condição humana, porque os jovens e do ensino confirmatório, da juventude evangélica e das escolas secundárias onde lecionei, quando me procuraram como pastor, sempre vieram desesperados ao descobrirem sua homoafetividade, e nenhum deles ou delas optou por isso. Descobriram-na e sofreram. Não contribuíram em nada para que fossem homoafetivos.

Os envolvidos também devem decidir se querem promover as espalhafatosas "paradas gay" onde, em minha opinião, criam uma imagem caricata de si mesmos, já que são os mais extravagantes, ousados e estridentes que têm coragem e vontade de se expor.

Também são eles que devem decidir até quando vão permitir que grande parte dos programas de humor na televisão brasileira se alimente dos tabus e preconceitos em relação à homoafetividade, sempre com a caricatura do frescalhão aloprado e oferecido. Não vi em meus hospedeiros nenhuma semelhança com tais caricaturas. 

Aqui na Alemanha não tenho ouvido piadas depreciativas sobre pessoas homoafetivas. Mas a discriminação também aqui persiste, ainda que se manifeste em escala menor do que em outros países. Calcula-se que 5% da população alemã é homoafetiva e que 18% não tem coragem, nem mesmo no âmbito familiar, de revelar sua condição. No lugar do trabalho, essa porcentagem sobe acima de 50% e o esporte é o âmbito que mais se fecha à homoafetividade. Esportistas escondem sua condição, ainda que paguem por isso o preço alto de oprimirem parte importante da sua vida, o que representa uma carga psíquica enorme.

O regime nazista programou a eliminação sistemática dos homens homoafetivos, juntamente com ciganos, com pessoas portadoras de deficiência e judeus. Apesar dessa experiência terrível, o Supeiror Tribunal Federal manteve o parágrafo 175 até l969, na forma como os nazistas o haviam formulado. Entre o fim da guerra e aquele ano, nada menos do que 50 mil pessoas foram condenadas com base nesse parágrafo e penalizadas, por exemplo, com a perda do emprego público.

Felizmente, surgem empresas que promovem a diversidade entre seus funcionários e proíbem a discriminação, seja por causa de religião, raça, idade ou condição afetiva. Também as cidades começam a se aliar a essa proposta, e Colônia foi a primeira a promover o respeito pela diversidade, para orgulho da sua administração.

Não resta dúvida que cada grupo humano precisa criar regras de convivência, leis de conduta, normas de orientação, para que a vida em comunidade seja possível. Precisa encontrar consensos, escritos ou não, que possibilitam a vida organizada e feliz dentro do seu território, dentro do seu espaco de habitação - para dizê-lo com uma palavra grega, dentro do seu "étos". O conjunto dos regulamentos, costumes convencionados, consensos escritos ou não formam os valores "éticos" de uma sociedade.

Na medida em que os grupos humanos decidem como querem organizar sua convivência, também decidem como não querem viver. Existe até mesmo certa necessidade de distanciar-se dos que são diferentes, para firmar a própria identidade. Por exemplo, o povo de Israel declarou o porco impuro entre outros motivos para se diferenciar de outros povos que o adoravam como animal sagrado.

Infelizmente, essa necessidade de diferenciar-se acontece não raras vezes às custas de minorias numéricas para as quais se cria uma imagem de inimizade. Tal imagem se agiganta e pode adquirir formas de brutal discriminação, perseguição e eliminação.

Pessoas homoafetivas têm experimentado a discriminação no decorrer da história, às vezes, tornando-se bodes expiatórios para insucessos, fracassos e frustrações de todo um povo. Ainda que as pessoas homoafetivas não prejudiquem em nada a feliz convivência no "étos", a sina da discriminação insiste em persegui-los. Meus hospedeiros, por exemplo, em nada prejudicam a possibilidade de vida boa e feliz dos moradores de Colônia.

Seguidores de Jesus Cristo podem conhecer, nos seus ensinamentos e no seu procedimento, grandes exemplos de acolhimento, inclusão e fraternidade com as minorias discriminadas pela sociedade. Amplos setores das igrejas cristãs assimilaram essa mensagem de Jesus e procuram agir dentro do seu propósito de inclusão.

Tanto mais lamentável se mostra a discriminação praticada por certos grupos dentro das comunidades cristãs - geralmente grupos terrívelmente "fortes na fé" e que, por isso, julgam-se pessoas melhores do que as que não aderiram ao seu grupo. Não estariam esses grupos incorrendo no equívoco de criar bodes expiatórios para os seus próprios medos e preconceitos? Não estariam desconhecendo os propósitos de Jesus, em nome do qual alegam agir? Não estariam caindo no equívoco de George Bush que pretende prescrever a Deus quem são os seus inimigos, para destruí-los, em nome de Deus?

No entanto, os nossos inimigos não são os inimigos de Deus; os que nós consideramos merecedores de discriminação, Deus não os discrimina. Nem mesmo precisamos recorrer a alguma piedosa generosidade - aliás, sempre humilhante - e dizer que aceitamos em nosso meio as pessoas homoafetivas em nome do amor cristão. Melhor é tê-las em nosso meio espontaneamente, sem justificativas piedosas, simplesmente como semelhantes, que não trazem mais do que apenas uma outra condição afetiva. Melhor do que incluí-los generosamente depois de excluí-los primeiro, é nem chegar a excluí-los.

* O autor é pastor emérito da IECLB, residente na Alemanha

SILVIO MEINCKE *

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EDIÇÃO • Abr/2016

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